terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Mais um capítulo, parte II

E, assim, vamos a Lincoln, esse meu camarada que era conhecido pelo seu jeito estranho de viver, não sei se consigo construir uma boa definição, pálido talvez fosse um jeito de colocar as coisas, e, bem, que palidez seria essa? Muito difícil explicar, talvez eu começasse dizendo que a palidez por si só não diz muito, até porque eu não posso negar nem mesmo a minha própria palidez e de mais quem quer que seja, pois, já diria Louise, grande Louise e seu olhar inquieto e suas mãos nervosas, nesse tempo, ou se é pálido, ou se é canalha - eu certamente devo ser as duas coisas, sim, sim, e mais outras tantas -, mas, façamos assim, contarei mais sobre Lincoln, ele morava em um quarto construído separado da casa onde morava sua mãe, no mesmo terreno; às vezes eu me perguntava se ele, já um homem com mais de trinta anos, não tinha vergonha de morar sob a asa protetora dela, enfim, parecia que não, e Lincoln era o único cara que eu conhecia que não saía de casa não por medo de assalto ou ataque de abelhas assassinas, aliás, não sei se já lhe contei a história das abelhas assassinas, seres que são uma parcela do resquício infindável de um tempo selvagem envolvido e envolvendo o homem em sua ação civilizatória ao se ver derrubando florestas inteiras como numa tacada de John Fresh, correndo um home run ensandecido, e, bem, parece que nesse processo, as abelhas tinham ficado sem lugar para morar e resolveram sobrevoar a região da grande cidade e trouxeram seu território junto e isso tornou as coisas bem desagradáveis por ali, os bichos faziam suas moradas em cima dos carros, nos telhados, debaixo das camas e picavam quem quer que se aproximasse, até que um grande produtor de mel disse que daria conta da situação, precisava apenas que lhe arranjassem um grande terreno e isso não era algo fácil, afinal, Nova York, meu amigo, você já entendeu, mas logo a prefeitura se encarregou da tarefa, porque as abelhas tinham deixado a cidade em alerta, e, sendo assim, despejaram alguns moradores de um cortiço no centro, houve luta, mas, você sabe como algumas coisas funcionam nessa terra banhada por Deus e os dólares, e depois derrubaram o prédio, limparam o terreno e lá foi Mr. Saint, o grande produtor de mel, e recolheu as abelhas num trabalho de dias e as reuniu naquele terreno em grandes colméias artificiais, esfregando suas mãos e vendo cifrões voarem alegremente em torno de sua cabeça inchada, porém se deu mal, muito mal Mr. Saint, tratavam-se de abelhas selvagens e quando digo selvagens, não estou pra brincadeira. Depois de devastarem as colméias e acabarem com a raça de Mr. Saint - ok, não de Mr. Saint, mas de seus empregados, é óbvio que Mr. Saint não suja as mãos não é mesmo, camaradas - elas se dirigiram para fora da cidade e acabaram com uma plantação de laranjas, por sorte não as laranjas que Johnny, Bill e eu tanto cobiçávamos para nosso empreendimento. Mas onde eu estava mesmo? Ah, sim, Lincoln, é verdade, o único cara que eu conhecia que não saía de casa simplesmente por alguns motivos difíceis de serem detectados à primeira vista. Não poderia ser de outra maneira, é certo, a mãe dele o considerava um depressivo profundo e vivia em tentativas de colocá-lo em planos de recuperação, ou então trazendo gente da igreja para tentar imprimir alguma motivação moral no homem, tudo isso rechaçado por Lincoln com alguma violência divertida, como sua confissão incrivelmente convincente de que era filho do demônio, ao último padre que viera tentar instá-lo a ser mais razoável. E assim seguia Lincoln, entre a cama e a mesa, vivendo de migalhas, dormindo ou escrevendo longos poemas, ou mesmo lendo todos os poetas irlandeses, a escória da Europa, ele dizia, nossos irmãos, com um sorriso largo no rosto, e havia pó pelo chão e teias de aranha no teto e ele não limpava nunca o quarto e não deixava que o fizessem, como certa vez em que Bill resolveu engendrar uma faxina no lugar e foi barrado impassivelmente por Lincoln e me refiro a Bill, o indomável-cheio-de-energia, você sabe, mas Lincoln apenas olhou para o chão e disse, de maneira arrastada, Bill, não faça isso, com uma voz lúgubre e discreta ao mesmo tempo, e Bill retornou à casa da mãe de Lincoln, levando de volta a vassoura e ouviu dela, esse idiota, ninguém consegue tirá-lo de lá, mas aquilo era mentira, vez ou outra, durante o inverno, Lincoln saía com sua bicicleta e demonstrava grande desenvoltura pelas ruas e eu o acompanhava com minha 12 marchas e circulávamos pelas ruas frias e ele não se interessava pelas garotas que eu lhe mostrava e, sim, eu podia sentir que havia medo ali, porém, ao mesmo tempo, não posso negar que o que fazia Lincoln sorrir mesmo eram as ladeiras que encontrávamos pelo bairro, deixando que as bicicletas falassem por si próprias, soltando os freios e as mãos, indo parar em regiões até então desconhecidas por nós, por exemplo aquele bar ao Sul da rua 14, onde se vendia absinto clandestino, que eu e Lincoln comprávamos e trazíamos de volta para seu quarto empoeirado, para que bebêssemos lentamente o negócio e ele lesse um pouco de sua poesia estranha para mim, até que Bill chegava e trazia o violão e ele fazia algumas músicas madrugada adentro enquanto Lincoln pegava no sono, e das duas uma, ou eu também dormia, chapado, ou acompanhava Bill, cantando, ou mesmo rasgando a noite com minha gaita precária, e, bem, nunca levávamos garotas para lá, porque queríamos mesmo era conversar com Lincoln e ele provavelmente não se sentiria bem se as trouxéssemos, talvez nem permitisse que as as coitadas entrassem, mas ele teve uma namorada certa vez, preciso lhe dizer, chamava-se Tina, uma bibliotecária linda e silenciosa, com um cabelo muito enrolado e cheio e escuro e a pele transparente, mas a vi poucas vezes por ali, depois ela desapareceu e Lincoln nunca nos contou o desenrolar daquilo tudo e nunca insistimos, porque sabíamos que ele preferia silenciar a respeito.

Mas, bem, estive na casa de Lincoln, naquele dia, nada demais, apenas uma tarde amena, silenciosa, e Lincoln escrevia e eu apenas encostei em sua cama e li As sete ilhas, de Breakdown, vez ou outra eu comentava algo, ao que Lincoln respondia com algum murmúrio e Breakdown é certamente um dos maiores escritores que já li, muito menos conhecido do que todos os outros contemporâneos seus, e é difícil entender, porque suas narrativas são ondas gigantescas que varrem cidades inteiras num átimo, e tudo isso soando como um sopro de uma criança, sem o tipo de grandeza da maioria dos nossos conterrâneos e muitas vezes imagino que sua impopularidade se deve ao fato dele ter se recusado à escrita objetiva e telegráfica da escola em voga, seus escritos muito mais se desenrolavam como longos pergaminhos transbordando vida - e, sim, você já deve ter ouvido esse papo todo, eu certamente estou reproduzindo a fala de algum desses estudiosos e, bem, provavelmente a conversa esteja soando um pouco pedante então, mas, por que eu deveria me importar? É realmente um prazer falar sobre Breakdown, se você já o leu e se sentiu tocado, é possível que entenda o que estou dizendo, porque é difícil se calar quando o lemos, parece que as frases que ele atira nos atravessam e querem sair para o mundo, rebatendo nos muros, às vezes mesmo derrubando alguns, tamanha sua força, penetrando a carne e o concreto, saindo do outro lado, gerando filhos, outras pequenas frases engatinhando, escorrendo pela baba das crianças de dois anos, criando modestos campos de força que às vezes chegam a parar soldados, nem que por alguns segundos, tamanha sedução e erotismo que são elas mesmas. Sim, sim, concordo, estou exagerando aqui, Breakdown não passa de poesia, mas, enfim, passei uma tarde agradável ali, depois perguntei se Lincoln ia me mostrar o que tinha produzido naquele dia, ele respondeu que ficava para uma outra vez, porque ele não tinha terminado o negócio.

Então era noite e eu queria saber por onde andava Johnny e me dirigi para casa e ver a pensão onde eu morava me fez lembrar que o aluguel estava atrasado e subi as escadas em direção ao meu quarto, logo a seguir procurei algo na geladeira, apanhei dois ovos para fritar, e além disso havia um cacho de bananas e apanhei três delas e esse foi meu jantar, então ouvi a buzina e olhei pela janela, havia um chevrolet azul parado e dentro dele estavam Bill, Johnny e Virginia e não acreditei naquilo e Bill disse, EI, VOCÊ ESTÁ PROCURANDO EMPREGO? NÃO QUER SER NOSSO SÓCIO? E é certo que metade da cidade tinha ouvido aquilo, então apanhei as outras bananas que restaram e saltei as escadas de três em três degraus, fazendo um barulho dos diabos e mergulhei para dentro do chevrolet azul e eu ainda não tinha dito, o negócio era conversível e nem preciso contar que a capota havia sido abaixada e Johnny estava sentado na parte de trás do capô, com os pés no banco traseiro, ao modo de Johnny se sentar em carros conversíveis, Virginia ao volante e Bill ao lado dela, eles estavam fazendo graça, era ele que deveria mudar as marchas, ou seja, tudo precisava ser altamente sincronizado e mesmo assim Bill ainda tinha tempo para contar sobre Stella, uma garota que ele havia conhecido no centro e que ela o havia levado para o litoral e lá ele passou toda a semana até que o marido dela apareceu de surpresa e, ao contrário do que ele pensava, o cara não se enfureceu, comportou-se de maneira bastante cordial, almoçaram juntos os três e o homem até lhe ofereceu cerveja e Bill poderia ter permanecido o resto da vida ali, vivendo às custas dos dois, fazendo sexo à beira mar, mas ele disse que, subitamente, com todo o espaço que o homem lhe dera, era como se não houvesse espaço algum, e então Bill resolveu se mandar, não sem antes jogar uma partida de bilhar com o cara, um baita jogador, Bill contou, você teria gostado de jogar com o homem, Virgo, mas, de qualquer forma, ainda somos amigos, eu, Stella e Josh, seu marido, um dia desses desceremos até a praia, nós todos, Pedro, meu camarada, mas agora estamos nesse novo esquema, temos laranjas nos esperando, mas antes temos muitos pontos para marcar. E Johnny não dizia uma palavra, apenas se concentrava para manter os olhos abertos contra o vento, os olhos semicerrados, liberando pequenas gotículas de lágrimas, e Virginia dirigindo suavemente, as mãos praticamente nem tocavam no volante e ela me perguntou como iam as coisas, daquele jeito que ela costuma perguntar, tímido como de costume, mas repleto de interesse, mesmo que ela tivesse que se concentrar para dirigir a quatro mãos.

Quando vamos às laranjas, talvez eu deva ter perguntado em algum momento, logo na seqüência levantando as bananas que eu trouxera e dizendo redundantemente, eu tenho bananas, e Johnny apanhou uma e a comeu quase de uma bocada só e paramos em um bar, jogamos bilhar, bebemos uísque, saímos sem pagar, porque não tínhamos grana, paramos em uma esquina e ligamos o rádio e começamos a dançar na rua, e nisso algumas pessoas se juntaram a nós, até que um morador do prédio da frente começou a jogar ovos lá de cima, depois cada um de nós teve que dirigir um pouco para mostrar seu estilo, Virginia dirigia descontraída, lentamente, quase nunca freava, e quando o fazia, era de maneira suave, as mãos flutuando sobre o volante, os olhos concentrados na estrada, sempre à direita, trocando as marchas sem forçar o motor, falando consigo mesma, bem, agora vou entrar aqui, esta rua deve ser paralela à oito, sendo assim, duas quadras a seguir deve ter uma praça, aquela onde tem aquele homem que vende algodão doce domingo à tarde e o motorista seguinte foi Bill, ele nunca olhava para pista e nunca parava de falar conosco e tinha o pé pesadíssimo e freava sempre em cima e punha a mão esquerda para fora do carro, ou dependurada, ou gesticulando, e mexia com as garotas na rua e mexia com os caras, com as velhinhas, com os guardas, cachorros e tudo o mais. Johnny também tinha o pé pesado, esticava as marchas até o fim, levando o motor até seu limite, mas ele não tinha gosto em frear, quase nunca o fazia, preferia desviar, mesmo que para isso tivesse que ficar na contramão, ou subir nas calçadas, tirando finas dos hidrantes, fazendo-nos acreditar que era o fim, mas nunca era o fim, Johnny estava ali para dizer que não havia fim, porque logo na seqüência outro obstáculo surgia e pensávamos, agora é o fim, mas ele desviava e assim por diante. Já eu, como meus amigos definiram, era um motorista sonolento, preguiçoso, porque eu me afundava no banco e deixava uma mão no volante e outra no câmbio, e eu dirigia com a boca aberta e a língua de fora, lentamente, deixando meu corpo cair para um lado e outro, conforme vinham as curvas, e eu nunca acelerava demais e fazia uma fila de carros se construir atrás do chevrolet. Por tudo isso, concluímos que, se algo desse errado durante nosso trabalho com as laranjas, Johnny é que deveria dirigir. Mas, se tudo desse certo, Virginia seria a motorista. Bill e eu servíamos apenas para os passeios, porque éramos distraídos demais. Então Virginia queria ir ver os caras do jazz em Portsmouth e nos dirigimos para lá e não havia jazz naquela noite, o que teria nos deixado chateados, entretanto, havia um velhinho branco e calvo com um bandolim e aquilo foi mesmo bonito, passamos boa parte da noite ali, sentados num canto do velho bar de James Sun, nosso camarada, escutando a voz lúgubre do velhinho emendando uma espécie de blues rural lento e fluido, até que percebessemos que, se queríamos laranjas, deveríamos partir urgentemente e foi o que fizémos e, mal passamos pela divisão entre uma cidade e outra, a gasolina acabou, é claro, nenhum de nós tinha se lembrado desse detalhe, e Virginia estava sonolenta e Johnny também e eu repleto de conflitos, sendo um deles a questão, deveria eu faltar ao trabalho um dia mais? Bill continuava elétrico, porém sua energia não parecia muito direcionada à necessidade de conseguirmos gasolina, sendo assim, andamos por cinco quilômetros de volta para a cidade, sentamos em uma praça e ali cochilamos até que o sol nos acordasse. Depois, silenciosos e satisfeitos, cada um de nós retornou para sua devida casa, sem as laranjas, ao menos por enquanto.

Mais um capítulo, parte I

Você precisa saber, sim, é verdade, a coisa toda começa quando Johnny surge com essa idéia de roubarmos laranjas em Salt Lake, quarenta quilômetros dali, onde há toda uma grande plantação destinada ao mercado saudável de suco integral, e Johnny obviamente já tinha arquitetado praticamente todo o plano, recolheríamos dez ou doze caixas das melhores laranjas do país, aquelas grandes e suculentas e amarelas laranjas típicas do Sul, e venderíamos todas na feira, agora, é óbvio, não possuíamos um carro para o empreendimento e possuir um carro, nesse caso, era realmente imprescindível, e aí entrava Bill, alguém sempre de vista límpida, analisando a situação e concluindo que precisávamos apenas "emprestar" um possante sempre que fosse momento de "repormos nosso estoque" e que, ao ter um carro em mãos, deveríamos usá-lo com sabedoria, o que significava, além de aproveitá-lo para o transporte de nosso produto, que também usufruiríamos do tal para outros fins de maior importância, como passeios noturnos e rápidas investidas ao litoral.

E, sim, Bill não se encontrava conosco no dia D e, além desse pormenor considerável, eu me sentia, a princípio, cansado como os diabos, afinal, menos de uma hora antes eu havia estado no escritório, eu, uma mesa, um carimbo e a partir disso é desnecessário explicar a coisa toda, você certamente já sacou, mas, embora o cansaço e a ausência de Bill se fizessem sentir, Johnny e eu sabíamos, éramos grandes homens que se encontravam à beira de mais um passo decisivo em suas vidas, uma típica situação comum para as pessoas empreendedoras, da mesma maneira que havia ocorrido com nossos corajosos antepassados que por aqui haviam estado a construir um mundo mais nobre e civilizado, como o famoso Don Laerte, o espanhol, Don Laerte e sua barba hirsuta e seus cabelos hirsutos e sua alma hirsuta e, bem, se não havia Bill, a parada devia ser encarada por Johnny e eu, e o fizemos com a maior determinação possível, afinal, éramos homens com os olhos em direção ao oeste, ouro, meu camarada, ouro, e como um pioneiro dos tempos de Hick Hook Neel, Johnny apontou para um chevrolet azul e demos alguns passos na direção de nosso Eldorado, Johnny na frente, enrolando um arame em sua mão direita, perguntando-se como deveria usar o arame, e não se tratava de uma questão destinada a mim, mas a ele mesmo, tecendo uma espécie de auto encantamento, parecido com os mantras que os comanches sussurravam para si próprios, na iminência de uma batalha, e na seqüência um homem apareceu, seu rosto branco e gordo colocado na fresta do portão, parecia que ele estivera sempre ali, desde os mais remotos tempos, muito antes do chevrolet azul e Johnny e eu e o próprio portão existirem, e, ao sermos questionados por esse homem das nossas intenções para com o carro, apenas olhamos entre nós, Johnny e eu, e meu camarada mandou uma história terrivelmente inverossímel de como seu pai havia morrido em um acidente, quando se dirigia a Nebraska, um acidente envolvendo uma carreta e um carro idêntico aquele e de como seu próprio pai, depois de morto, assombrava-lhe pedindo que comprasse um chevrolet azul e terminasse a viagem a Nebraska, e, bem, será que o bom homem não se prestaria a lhe vender o automóvel e é claro que o homem disse um sonoro "não", e sentimos como se, a qualquer momento, se fizéssemos qualquer movimento errado, presenciaríamos aquele homem a mandar seus vinte e oito amigos boinas verdes saltarem de trás das plantas do belo jardim da casa para que finalmente nos matassem, depois, é claro, que também nos torturassem para que entregássemos os outros integrantes da nossa quadrilha internacional e, sendo assim, Johnny e eu giramos os calcanhares em direção ao primeiro bar que encontrássemos porque precisávamos de uma partida de bilhar e um trago, a noite estava sendo dura demais conosco.

A caminho do bar, é verdade, em algum momento aquela sensação apareceu, a mesa e o carimbo, mesmo ali, no excelentíssimo meio fio, enquanto eu galgava o mundo ao lado de Mr. Beefheart, meu Johnny, e ele criteriosamente mastigava um chiclé encontrado no bolso da calça e havia Dona Ruth, sim, Dona Ruth, porque Dona Ruth, despedida ainda naquele mesmo dia, um pouco antes da minha aventura em busca do chevrolet azul, possuía as melhores pernas, as mais torneadas maravilhas de todos os escritórios da Life Co., sendo Life Co. a mega coorporação onde eu trabalhava à época, e lhe digo, não havia nada mais agradável para se fazer nas oito horas que eu permanecia dentro do prédio sede da Life Co. do que apreciar as pernas de Dona Ruth... nem mesmo o cafezinho era tão agradável do que a imagem das pernas lisas e provavelmente cheirosas de Dona Ruth, sim, provavelmente cheirosas, eu nunca tivera o prazer de me aproximar tanto das pernas desta distinta senhora, e, uau, mas, então, nada mais havia para se ver naquele lugar, eu tinha perdido as pernas de Dona Ruth e Dona Ruth tinha perdido seu emprego, como ela compraria creme para cuidar da pele? E, meu amigo, QUE PELE MACIA AQUELA, até me lembrava a história de Maxwell Krakatov, o famoso serial killer que, naquela época tinha deixado toda a nação de cabelos em pé, o maluco sequestrava as mulheres e lhes arrancava a pele, colecionava as peles das suas vítimas, por Cristo, um obssessivo, aquele doente, mas, enfim, aquilo tudo me fazia pensar que eu não agüentaria por muito mais tempo, trabalhar para comprar comida e comprar comida pra trabalhar e ainda me encontrar destituído das pernas de Dona Ruth. Era demais.

E Johnny me tirou por um momento daquela imersão no fundo do pântano cíclico da morte, me cutucou e dispôs um copo de uísque para mim, é por conta da casa, gracejou, e, a seguir, pediu uma ficha para o garçon, mandamos ver no bilhar, o bar vazio, agradável, nos incentivava a permanecer e permanecer, e assim foi, mas logo me lembrei da Life Co. novamente, porque sim, Life Co., meu amigo, e eu contei tudo a Johnny, e ele trouxe mais uísque, e Johnny parecia estranho, lacônico de um jeito que ele não costumava ser, porque quando digo lacônico e me refiro a Johnny, não menciono a ausência de palavras, quero dizer que Johnny se apresentava com um típico silêncio à la Johnny, que é o da ausência sim de acrobacias, e eu não conseguia apreender os motivos daquilo e ele balbuciou em algum momento, as laranjas, as laranjas. Bem. Devia ser já alta madrugada e apesar da atmosfera agradável e tranqüila do bar, a noite não engrenava, nada se movia, havia as bolas coloridas do bilhar, os tacos do bilhar, o garçon, um freguês, outro, mais um, Johnny, eu, as laranjas, a Life Co., cada coisa em seu lugar; mesmo uma bela mexicana que chegou acompanhada do namorado não movia uma palha sequer, ela se sentou ao lado do namorado, o namorado se sentou do lado dela, os olhos dela estavam acima do nariz, o nariz acima da boca, a boca acima do queixo e assim por diante, como deve ser. Suspirei em algum momento e já era muito tarde, fui a pé para casa e, quando deitei, o relógio marcava quase quinze para as seis e, como verdadeiro trabalhador que era, acordei às seis em ponto, firme até onde poderia, e foi neste estado que escorreguei pela cama; quando dei conta de mim, havia uma multidão dentro do trem que me cercava, me acomodava em pé, e assim dormi, e assim terminei em Point Ville, já sentado em um banco, sem saber como, há vinte quilômetros da Life Co. Jesus! Tive um pesadelo terrível durante esse cochilo, no meio da barriga, Dona Ruth tinha uma boca enorme e de lá uma voz medonha dizia coisas terríveis e Dona Ruth depois arrancava meu pau com as mãos ágeis de datilógrafa e dava o negócio para a boca comer e, rapaz! Eu estava realmente muito atrasado! Decidi não trabalhar, vomitei em uma lixeira, bebi um café, comprei uma passagem de volta, retornei dormindo todo o caminho, minha cabeça doía, quase passei direto pela estação onde devia saltar, saltei, parei em uma lanchonete, tomei um desjejum digno, olhei para a rua, havia um sol tímido, senti-me forte, um verdadeiro touro selvagem do oeste, assobiei para um garota que passava na rua, ela sorriu para mim, resolvi parar na casa de Lincoln, meu camarada Lincoln, e torci para que a idéia das laranjas realmente desse frutos.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Apresentando Richard Madson.

É verdade, eu me recordo bem do Richard, irmão do Mike; Mike, três vezes preso até que lhe dessem um fim. Éramos apenas crianças, à época, literalmente. Gostava muito de poder passar as tardes sentado à cerca do Casarão, logo à esquina. (O Casarão, em cujo quintal às vezes jogávamos baseball; as árvores nas quais subíamos para depois cuspirmos nos que tinham ficado em baixo. O Casarão, de cujos donos nunca tivémos notícia. O Casarão, depois demolido para ceder lugar a um amontoado de casas, depois demolidas para cederem espaço a um conjunto de lojas, hoje decadentes.) Volta e meia apareciam os outros e nada fazíamos que não fosse matar o tempo. Em algumas ocasiões alguém aparecia com o último número dos quadrinhos do Homem Incrível, este, na época, ainda longe dos cinemas; o Homem Incrível, apenas uma bobagem para moleques, ou seja, para nós; o Homem Incrível e sua capa vermelha e seus olhos azuis, saltando por cima dos prédios então nem tão altos, superando um tipo de morte que para nós aos poucos já desaparecia: os hospitais ainda nem eram tantos; quantas vezes não desci com meu pai até o velho Honky Eagle, mistura de comanche com espanhol, para tomar as garrafadas dele e me curar de alguma gripe naquela época ainda algo quase preocupante? (Me recordo bem de meu avô e suas mãos enormes, dedos duros e repletos de calos, seus últimos meses na cama de seu quarto, aquele cheiro de fim rondando a casa toda e boa parte da nossa rua, cheiro esse que jamais me esqueci e os tantos meses que meu pai andou para cima e para baixo com sua gravata preta puída, após a morte de meu avô.) Mas também já tomávamos Lee Buffallo, o tônico para todos os males, espetacular descoberta científica e tecnológica, sempre anunciado nas rádios, durante os programas de Martin L. Brown, um verdadeiro herói para mim - quantas canções não aprendi e ainda hoje não cantarolo em tardes amenas, anunciadas, à época, pela voz aveludada de Martin L. Brown, em seu programa vespertino? E líamos o Homem Incrível - que fazia muito mais sentido do que Stonehard, mesmo que gingássemos como o próprio, um cowboy desbravador do Oeste, posto que nenhum de nós montava à cavalo - e os bandidos mereciam cada surra que levavam: eram bandidos, afinal. E eu seria como meu pai, um dia, no futuro, trabalharia em uma daquelas fábricas enormes, seria a base do progresso humano, como ele mesmo costumava dizer, ao encaçapar alguma bola no bilhar do Velho Jacob. E Richard aparecia vez em quando, no começo muito quieto, isto é, Richard nunca deixou mesmo de ser, do jeito dele, quieto, mas, no início, ele parecia ser apenas mais um de nós, mesmo que alguns fizessem mais estripulias que outros - no final, éramos mesmo apenas um bando de moleques vadiando pelo bairro. E então Richard me apareceu com uma flauta e, até aquele momento, nós, meninotes ríspidos da rua 12, nunca havíamos visto qualquer coisa parecida e, bem, para meninotes ríspidos da rua 12 - e muito provavelmente para os meninos ríspidos de muitos outros lugares - qualquer coisa não compreendida era cruelmente taxada como coisa de veado. E Richard se tornou o veado da turma, não que ele já não fosse: depois que os garotos começaram a chamá-lo de veado e mariquinhas e outros nomes como esses, pude perceber que ele realmente só podia ser veado com aqueles lábios grossos e vermelhos e a pele muito branca e os cabelos escorridos caídos nos olhos grandes e as mãos frágeis demais para que ele conseguisse subir nas árvores. E então Richard não mais freqüentava a nossa roda de colegas que ficavam no Casarão ou procurando briga com os meninos das outras ruas ou atirando em passarinhos ou lendo o Homem Incrível e comentando dele as aventuras maravilhosas. Não freqüentava em parte, porque ele sempre estava nos arredores, olhando de longe, ou se aproximando até que fosse escorraçado e isso era como as coisas se davam entre nós e Richard e. Bem. Richard hoje é músico na Orquestra Municipal e faz dupla com uma cantora folk, já gravaram um LP e tudo, e hoje ele aparece vez ou outra nas festas que a gente dá, e nos cumprimentamos cordialmente quando nos encontramos no supermercado, mas, muito antes disso, numa tarde de sol, quando eu voltava da venda de Mrs. Clieverlan, topei com Richard sentado na Praça 8, tocando sua flauta e bem. Era realmente bonito aquilo. Não titubeei em sentar ali por perto e ouvir um pouco. Nós não conversamos muito, não por má vontade, mas a verdade é que não tínhamos muito a dizer, nossas cabeças não funcionavam direito para essas coisas, muito mais a minha, eu tinha 8 ou 9 anos. Em algum momento, a seguir, eu, Pedro Miguel, um verdadeiro macho, grande representante da espécie, estava sobre o corpo de Richard e realmente aquilo estava muito bom, não sei precisar exatamente o quê, mas estava gostoso a valer, e ficamos nos mexendo um pouco, nos esfregando um no outro, atrás dos arbustos, até que um de nós se cansasse. Fui para casa sem pensar muito no assunto e Richard sumiu por um tempo e, quando Norbert lhe deu umas bifas, algumas semanas depois, atrás da Igreja, o chamando de mulherzinha dos diabos, eu realmente devo dizer que nada fiz e que realmente não tive muita vontade de fazer coisa alguma - parecia não haver mentira no meu movimento, naquela época eu realmente acreditava que Norbert bater em Richard era algo absolutamente normal.

sábado, 9 de maio de 2009

Como Pedro ficou sabendo da morte de Ginger Honeyspoon, atropelada em uma avenida de Nova York, ao passar mal por ter comido um hambúrguer.

Às duas e quarenta e três da madrugada o telefone tocou na casa de Pedro. Era Josh, que disse: Ela foi atropelada, Pedro, mas calma, não foi nada muito sério, eu acho. Pedro, ainda em processo de acordar, pensou ter ouvido "Nós gatos já nascemos pobres" e respondeu ser a favor da castração, porque não conseguia suportar mais o canto dos gatos, os carros, os aviões, as indústrias, os bombardeios e os vendedores de salame. Pedro - repetiu o amigo -, sou eu Josh. Ah, respondeu Pedro. Como eu dizia, ela foi atropelada, Pedro, estou aqui no Norte com a cia., não poderei voltar agora, será que você não pode vê-la no hospital? Ela irá gostar se você for, a noite em um hospital é muito solitária... Pedro prontamente respondeu: acho que sim, posso ir, Josh. Desligaram, Pedro procurou os óculos, não os encontrou, foi ao banheiro, tomou uma ducha, enquanto voltava ao quarto teve um estalo, ligou para Josh. Sou eu, Pedro. Deixa eu te perguntar, você me ligou agora pouco? Sim, liguei. Ginger foi atropelada? Sim, foi... Ah, obrigado, eu pensei que poderia ter sido um sonho.

Carregou a bicicleta até a rua. Nas costas, uma mochila. Não prestou muita atenção ao cheiro úmido da noite. Também não reparou que a cor do portão do vizinho havia mudado . Atravessou a 23, entre os moradores de rua e as meninas na Central, 10 mangos a chupada - ele nunca pagou uma garota para lhe dar uma chupada. Parou na loja de conveniências que havia na esquina. Comprou dois maços de cigarros, entregou uma nota de 10. O troco pegou em balas. Começou a chupar uma delas, era doce demais e aquilo o enjoou. Enquanto subia na bicicleta, cuspiu a bala. Guardou o restante no bolso. Em frente ao Finger's, garotos ouviam música em seus carrões. Uma ambulância rasgou a Avenida, enquanto ele se lembrava de uma noite em que esperou Ginger por duas horas e dezoito minutos, em frente ao mesmo Finger's, e que ela não apareceu e que ele só foi ter notícias dela duas semanas depois.

Conheceu Ginger há uns seis anos atrás. A primeira vez que a viu - e ver é o termo exato - foi no Martin's, deu com a imagem dela refletida no espelho do bar. Nunca mais conseguiu se livrar, não da imagem, mas das lembranças rarefeitas e agudas que vê-la trouxe à tona. De início, pensou que pareciam irmãos, porém logo percebeu que, de certa maneira, enganava-se, porque, se por um lado sentia que poderiam andar de mãos dadas ou compartilhar um bom drink, também havia entre eles uma espécie de laço triste demais.

Ginger - e ele provavelmente nunca saberia - tivera a mesma sensação, no entanto, enquanto para ele aquele perfume adocicado permaneceria, para ela tudo seria diferente; Ginger teria essa característica de escorregar, desaparecer. Vale contar que o mesmo aconteceu a ela, porém com papéis trocados, quando ela se apaixonou por Lincoln F., em plena guerra civil. Este homem integrou as fileiras da resistência e, entre um combate e uma fuga, sempre aparecia e se encontrava com Ginger; tais momentos eram raros, porém, e deixavam em Ginger uma sensação de vazio a qual ela tentava preencher, enviando muitas cartas a Lincoln, todas sem resposta. Poderíamos formular o movimento desse embrólio de relações da seguinte forma: Pedro - Ginger - Lincoln, não fosse o fato de que, finda a guerra civil, Lincoln, ao pedir Ginger em casamento, tivesse sido veementemente rejeitado, situação que abriu espaço para Pedro, invertendo a fórmula para: Lincoln - Ginger - Pedro. Por um tempo curto, é verdade, já que logo Ginger resolveu passar férias na California, onde conheceu Josh, que coincidentemente já conhecia Pedro anteriormente, de uma viagem que este fizera ao Sul do Canadá. Com Ginger distante, Lincoln sentiu-se atraído por Pedro, mas sem possibilidades, porque Pedro juntou-se novamente a Elsie para morarem juntos pela segunda vez.

Pensar em Ginger fez Pedro se recordar de uma noite em Riverside. Duas camas postas, Ginger dirige-se a ele: Pedro, não quer dormir aqui comigo? Ele prontamente fez que sim com a cabeça. Deitou-se ao lado dela. Beijou-lhe os ombros, mas foi rejeitado bruscamente. Passou a noite fitando o teto, não pregou os olhos e não ousou tentar mais nada. Ligou a TV, assistiu o desenho de Jimmie, o filhote de ornitorrinco. Não aumentou o volume, para que Ginger não acordasse. Naquele episódio, Jimmie, o filhote de ornitorrinco, encontrava-se sozinho em casa. Enquanto Martha, a mãe ornitorrinco, não voltava, Jimmie resolveu comer os biscoitos que ficavam em cima do armário. Depois vomitou tudo na pia e se escondeu atrás do aparelho de televisão - ele adorava se esconder ali, era o seu lugar favorito, porque ficava quentinho, quando a TV encontrava-se ligada. Então a manhã chegou e Pedro saiu da cama, andou até o banheiro, lavou o rosto, escovou os dentes e chamou Ginger, tinham que ir embora.

Esta história abriu um desejo em Pedro, ele apalpou um livro dentro da mochila, viu, do outro lado da rua, um banco. Arrastou a bicicleta, sentou-se, abriu o livro, apanhou uma caneta. Um filhote de gato passou, Pedro apanhou o bichano, fez-lhe um pouco de cafuné e o ajeitou dentro da mochila, de modo que ficasse com o corpo aquecido. Ginger gostará de você, pulguento. Vai te dar um nome e banho e leite e brincar com você, quando estiver entediada.

Lembrou-se de um trecho da única carta que ela havia escrito a ele. Sabia-a decór. Transcreveu no livro, com letra caprichada:

Pedro. Algo grande em nós, que não podemos segurar, apenas esconder. E desse esconderijo, nascem pobres frutos secos. Acho que nunca terei coragem de finalmente me esquecer um pouco de mim e, assim, lembrar-me. Gostaria muito que você pudesse não temer a morte. Às vezes penso se não somos almas gêmeas.

Depois, Pedro continuou escrevendo, em seqüência ao trecho da carta de Ginger:

Nunca vou me esquecer de Movetown, aquela temporada em que fizemos tanto. Lembra-se de Louie? E Fred? Camilla, com seus cabelos curtíssimos? Fico pensando quão difícil é falar sobre aqueles tempos, quero dizer. Me recordo de certa vez, naquele dia em que atravessamos o rio para nos juntarmos ao pessoal-antes-odiado-do-Flitsburn, que surpresa aquela festa que antes parecia impossível, e agora estávamos lá, dançando e nos divertindo a valer - e eu já me pegava falando daquele jeito esquisito de Flitsburn e pensei: UAU! Isso está realmente acontecendo? O que o futuro nos guarda, isto é, se isso é possível, tudo é possível. E eu não percebi, então, que era ali a coisa toda. Há quanto tempo não vejo Flitsburn? Nossa. Há muito tempo. E pensei tanto como seria para nós dois, Ginger, isto é, íamos ter filhos? E você estava realmente deslumbrante, naquele dia, como em todos os outros, mas naquele dia, naquele dia, oh, droga. E nem me dei conta de como era descer aquele rio, como foi que o descobrimos? Quero dizer, ele esteve sempre ali, mas a gente demorou a perceber como poderia ser bacana descer a corredeira de barco. E descobrimos, cada descida era uma primeira vez e era preciso se molhar de verdade para conseguir vencer aquela imensidão de água, entrar nas ondulações da coisa toda. Era preciso ficar empapado e dançar. O rio, lembra-se? Bem. Nesse momento estou indo ao hospital, crendo que certamente você está bem, o que me permitirá, como estou planejando agora, deixar apenas esse bilhete escrito nesse livro - é aquele Fireburn que você uma vez havia pedido emprestado, como você já deve ter notado -, evitando, assim, que nos encontremos, o que causaria uma situação constrangedora e desnecessária. Com amor, Pedro.

Então é Pedro retornando do hospital, empurrando a bicicleta e rindo um bocado. Parou na ponte de Horksheirer e disse para si mesmo: nossa literatura tornou-se apenas uma narrativa do quotidiano. Atirou o livro o mais longe que pode. Pensou na voz muito aguda da recepcionista: Ginger Honeyspoon? Me desculpe, senhor, mas, infelizmente, ela não resistiu à cirurgia. O gato - que descobriu ser uma gata -, Pedro levaria para casa e daria o nome de Daisy. Tudo isto ele narraria anos depois, a Bill, em um bar, antes mesmo de se embebedar. Mas não contaria que Ginger na verdade provavelmente se encontrava, naquele momento, trabalhando como dançarina em alguma casa no Leste, ganhando pouco, mas aparentemente bem, ainda em forma, talvez apenas um pouco mais silenciosa do que de costume.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

E, é claro, Annie estava maluca para ver o Show de Jammie and his dogs.

Bem. Eu não nego que Jammie talvez ainda tenha algo a dizer, isto é, talvez ainda consiga enganchar letras inquietantes em freqüências de energia pura. Mas não sei. Isso tudo pode ser muito bem apenas mais alguma balela desses jornalistas gonzo preguiçosos - o que não é realmente um problema, digo, ser um jornalista gonzo preguiçoso, isso até tem lá o seu charme -, mas o que eu pensava logo se concretizou: Jammie, ainda que estivesse em boa forma, apesar dos mais de cinqüenta anos, mais da metade chafurdando na lama, ficava no mínimo a trinta metros da grade de proteção, o palco longe demais; às vezes era impossível dizer que era ele mesmo. Vai saber. Você, que provavelmente estava lá também, vai primeiro dizer que os grandes shows são assim mesmo. E depois talvez argumente que tem essa coisa da energia da multidão, como isso pode transformar um show em algo maravilhoso e vai falar sobre as grandes concentrações de pessoas, como são incríveis, e eu talvez até concorde em parte - daria para contra argumentar facilmente, eu acho -, mas o fato aqui é que estamos falando de Jammie and his dogs, meu amigo, eu tive três cópias em vinil de Refuse the Law, todas gastas e repostas, na minha adolescência, porque bem, era como se eu já soubesse, à época, que, de alguma maneira, Jammie pudesse nos ensinar alguma coisa sobre desobediência, num tempo em que, quero crer, berrar em um microfone ainda era mesmo um estilo de vida e não apenas um negócio que você pode comprar à 10 dólares no supermercado, por mais ingênuo que dizer isso pareça.

E então estamos nós dois e mais dois amigos de Annie, Jerry e Louie, e há pelo menos o quê? Pelo menos umas trinta mil pessoas por ali e sim, gosto de me meter em enrascadas, mas. Quero dizer, às vezes é ótimo se meter em enrascadas, pneus furados, caminhos obscuros, falta de grana durante a noite, gente chata, vazamentos no telhado, brigas com vizinhos, fila no banco, tudo isso pode se tornar uma pequena aventurazinha, se você deixar rolar. Se. E, é claro, o fato daquilo estar cheio como o inferno e das pessoas todas pisarem no meu pé e da cerveja custar cinco vezes mais e de que Jammie, ainda que estivesse em boa forma, não poderia nunca lembrar a lenda do homem que rolava em cacos de vidro e que brigava com gangs inteiras de motoqueiros e que fugiu durante onze meses do FBI, ainda mais sendo um ponto distante no palco, tudo isso, meu amigo, apenas tornava tudo pior. Ali estava um bom show, bom demais, se você quer saber - apesar da bateria cobrir a guitarra em I don't have home to come back - , mas, não estou certo se Jammie era mesmo humano, pra ser sincero. Quero dizer, ele até sorria, da beira do palco, e dava alguns saltos para mostrar que a idade e uma fase com drogas pesadas nem sempre arrasam com um homem, mas não sei, não sei.

Talvez você diga, bem, meu amigo, você não tem mais idade para a coisa e eu direi, talvez você tenha razão. Talvez. Porque boa parte das pessoas ali eram até mais velhas do que eu, se você quer saber a verdade. E isso não significa que a música do velho Jammie não pode tocar os mais novos, também não é isso. Tem esses moleques daqui do quarteirão, eles me conhecem como Joey's Uncle, por causa de Joey, e outro dia eles estavam em casa e eu disse a Annie, ei, o que será que essa molecada ouve e, bem, eles têm um gosto bastante eclético - eu sei, essa palavra é realmente horrível, mas - e isso tem um lado bom, claro, e um lado terrível, mas então coloquei, sem avisá-los e sem fazer nenhum comentário, Jesus I haven't got what you've said, man, em um volume médio e o óbvio aconteceu, eles logo estavam interessados em saber o que era aquilo - menos Joey, que tem uma certa resistência ao que eu lhe apresento, talvez por não querer que eu substitua o pai dele - e todos eles logo estavam batendo o pé junto ou tentando cantar o refrão, imitando a voz de pato rouco de Jammie. Óbvio. Música com batida repetitiva, melodia simples - o refrão é incrível - e uma letra genial, que permite desde uma leitura rasteira até profundas elucubrações críticas a respeito do que nos ensinam, desde pequenos, sobre ser pecador, enchendo nossa cabeça de terrores infindáveis. Voi lá, os garotos sabem das coisas.

Após o show fiquei pensando se não desejava que fosse diferente, talvez eu sentisse falta de algo. Como se eu quisesse que o show de Jammie se enquadrasse no velho esquema de juntar uma turma e fazer alguma coisa juntos: música, música! Sempre me pareceu muito mais excitante um show com os caras ali, saltitando na minha frente, e poder cumprimentar o cara que mandava ver na guitarra, logo depois do show, e de ser amigo de infância do baterista, e depois também fazer o meu próprio barulho e fazer alguma coisa realmente legal, que fala de nós mesmos, de nossos sonhos e dores, e que dura o tempo de se estar ali.

E então estamos presentes ao concerto de Mr. Jammie and his dogs e uau. Um barulho dos infernos e eu realmente queria não ter ido. Aquilo parecia uma boa propaganda de cerveja - impressão reforçada pelos cartazes imensos com os logos da Grift - , com um homem sem camisa gritando ao microfone, tentando, ao meu ver, parecer trinta anos mais novo. Não sei, não sei. De qualquer forma, já que eu tinha ido, resolvi me divertir ao menos um pouco: primeiro contei o número de pessoas com cabelo branco presentes; depois o número de meninas uniformizadas com camisetas estampadas com o rosto do velho roqueiro; então acabei indo para o fundo da pista, onde existia algum espaço e fiquei ali deitado, até que uns garotos sentaram ao meu lado e eles pareciam um pouco entediados e eu perguntei o que eles estavam fazendo ali e eles me disseram que o pai os havia trazido e eu disse que o pai deles parecia um cara legal e eles disseram que sim, mas que às vezes passava dos limites.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Apresentando Johnny.

Houve essa vez em que eu resolvi que deveria aprender a jogar bilhar. Depois da carta de Virginia, a vontade de mandar ver nos bares da cidade se tornou cada vez maior. E eu queria já começar antes mesmo dela voltar de San Antonio, para fazermos glória e dinheiros pelo mundo assim que ela pisasse em Jersey. Desci à casa do meu amigo Johnny, um cara acostumado a encaçapar as bolinhas. Ei, Johnny, como vai? Ele me sorriu e nos cumprimentamos à moda dos mal encarados da rua 18. Ele entrou na casa e eu o segui. Bebe um café? Claro. Sentaí. Bebemos café, eu sentado à mesa, Johnny acomodado sobre a mesa. Isso é uma das coisas que mais gosto nesse cara, algo que, de alguma forma, eu sempre tento levar comigo. Não me refiro ao fato específico dele ficar sentado no tampão de uma mesa com a xícara de café equilibrada no joelho; é como se eu considerasse aquele ato apenas como uma pequena mostra, um índice singelo de algo maior: a mania de Johnny de se dependurar em tudo que é lugar. Eu sei que isso pode soar imensamente pueril e deve mesmo ser. Não importa. Nada se compara a uma certa alegria que o corpo sente quando você salta um banco de praça ou se equilibra sobre um canteiro ou escala um muro para se instalar lá em cima. É quase como dançar - de um jeito mais informal, claro, mas, ainda assim, uma espécie de dança.

E então ficamos ali bebendo café. Eu não quis convidar Johnny logo para jogarmos e tampouco contei meus planos de me tornar um grande mestre do bilhar, porque achei que estava bom ficarmos ali, em uma espécie de nada-fazer. Isso é bom em Johnny, ele é um cara silencioso quase sempre. Às vezes esse comportamento causa problemas, é verdade. Como na época em que ele estava tendo um caso com Ellie. Eles haviam começado o negócio há pouco tempo, mas, parece, ela já estava gamada nele. E então estou eu sentado sobre o muro da minha casa, comendo ameixas e jogando os caroços no chão de terra do quintal, quando Ellie está passando com uma garota, uma loira nada mal que se chamava Joyce ou June ou alguma coisa assim e eu, uau, que loira, nada mal, nada mal e, ei, Ellie, Ellie! Ellie! E Ellie me viu e veio até mim e, como vai, querido? É aqui onde você mora? Que bacana. E, sim, quer entrar, tomar alguma coisa, Ellie? Quem é a sua amiga, etc. E Ellie, não posso agora, estou procurando a casa do Johnny, ele me disse uma vez que era por aqui, você sabe onde é? Mas claro, levo vocês duas lá, só um instante, vou lavar as mãos e botar uma camiseta e, claro, eu estava calculando tudo, 2+2=4, e tínhamos então um número par, uau. O próximo passo foi andarmos rua abaixo. Alcançamos a casa do Don Juan. Quando Johnny nos viu à porta, fez uma cara engraçada. Deixou a gente entrar. Ficamos ali pela sala, ele quieto, Ellie se agarrando no pescoço dele, ele balbuciando alguma coisa como "preciso sair, vocês vão ter que ir embora, será que não podem voltar mais tarde?" Eu não entendia nada, mas não podia me esforçar na tarefa de entender, estava tentando conversar com Janet - ou Joan, sei lá -, meus hormônios falando comigo, eles diziam, bem, você não tem mais dezesseis anos, mas, caramba, sempre pode se divertir. E eu queria ir à cozinha, mas Johnny disse, NÃO, quero dizer, não vá lá agora, o que você quer, eu pego pra você. Entendi menos ainda e puxei Johnny de lado e ele me sussurrou ao ouvido: droga, estou morando com uma garota há quatro meses, ela está dormindo no quarto agora, se vir Ellie ou qualquer outra mulher aqui vai me matar. Claro, se Johnny tivesse me dito antes eu não teria levado Ellie até lá, mas nããão, esse é Johnny, meus amigos.

Então estamos bebendo café e depois Johnny segue até a garagem, que fica no fundo da casa. Vou ao banheiro. Logo me junto a ele. Dou com Johnny fuçando uma velha 125. Que parada é essa, Johnny? Ah, troquei por aquele fogão mais dois butijões de gás. Funciona? Parece que sim, tem com um problema no carburador, mas acho que posso dar um jeito. Sentei no chão. Johnny mexia na motocicleta, as nuvens foram fechando, o céu escurecendo. Pensei que devia logo ir jogar bilhar, antes que a chuva despencasse. Mas fiquei com preguiça e, claro, quando você tem preguiça, muitas vezes o melhor é se deitar no chão e relaxar. Johnny perguntou se eu não podia dar a partida na moto, ele não podia porque uma bicicleta tinha passado em cima do pé esquerdo dele dois dias atrás. Dei a partida e o negócio funcionou. Johnny montou na moto e ficou dando voltas pelo quintal com um sorriso no rosto. Uma volta. Duas voltas. ZUM! Três voltas. Oito voltas. Depois parou, desceu da moto. Botou as mãos nos quadris e ficou olhando pra ela, cheio de contentamento. Meus olhos pulavam da moto para ele, dele para a moto. Então ele olhou para mim. E de volta para a moto. Depois para mim outra vez. Dei lhe um tapa no ombro, é isso aí, Johnny. Ele disse que ia tomar banho. Isso significava que iríamos de moto até a 25, ver se arranjávamos umas garotas ou alguma confusão. Ou as duas coisas. E foi isso que fizémos. Rasgamos pela Principal e logo estávamos no Martin's. Eu ainda tinha que jogar bilhar, mas foi nesse dia que vi Ginger a primeira vez e aí, bem, esqueci do bilhar, é que Ginger era - é - a dona das pernas mais deslumbrantes que já vi em toda a minha vida, mas sobre ela eu conto outro dia, porque logo depois estamos Johnny e eu voltando para casa e não demorou para ouvirmos uma sirene, oh, merda, é com a gente, você não tem os documentos da moto, não é? Exato, não tenho, e também não tenho carteira e então Johnny cortou pela 17, contornou como um louco o Teatro Municipal, e os tiras na nossa cola, oh, merda, merda, merda e subimos na calçada e atravessamos a praça Lawton Jr., o carro da polícia circundando a praça, babando como cachorros em busca de um osso - mas por que mesmo estão nos seguindo? -, Johnny acelerando como um louco, desviando das árvores, oh, merda, merda, e então ouvimos o primeiro tiro, o segundo, MEEERDA, eles estão ATIRANDO - e nem roubamos um banco ainda! - , e então Johnny cortou até a estátua do Grande Desbravador Cheio de Cocô de Pomba - o homem que fundou Jersey - e lá havia uma escadaria e VRUUUM, rumamos até o topo, o carro da polícia parando, a rua seguinte distante demais para eles contornarem, o Parque do Grande Desbravador um labirinto onde seria impossível nos encontrarem, inúmeras saídas, o vento da noite em nossos rostos, seres noturnos zanzando pelo parque, e UAU, zarpávamos rumo à vitória, saímos do parque e. Demos de cara com outras duas viaturas.

E no xadrez conheci um pederasta que queria me comer de todo jeito, a minha sorte é que não se tratava de um cara violento, pelo contrário. Conversava numa boa. Johnny sim teve problemas sérios, pelo que me contou depois; na cela onde o jogaram - que estava lotada; ele não tinha curso universitário como eu - queriam suas roupas. Um negro com uma bandana na cabeça e uma corrente no pescoço queria as calças. Um cabeludo com uma cicatriz no rosto lhe pediu as botas. Um barbudo corcunda queria a camiseta. Um baixinho de bigode que tinha tuberculose mandou que lhe entregasse as cuecas. Então Johnny se jogou sobre o negro com a bandana e travou uma briga com o cara. Tomou um cacete, é óbvio. Mas os caras lhe admiraram pela coragem - acho que não conheciam a palavra desespero, para eles era MEDO ou CORAGEM, sem meio termos, e deixaram que o sortudo entregasse apenas as botas. Do meu lado passei a noite jogando pôquer com o tal pederasta. Ele não quis me dizer porque havia sido preso. E deu risada quando eu contei a história da moto. Ele botou a mão no meu joelho e eu deixei. Ele botou a mão na minha coxa. Ok. Depois meteu a mão entre as minhas pernas e aí achei que era demais. Eu simplesmente não ia conseguir. Ele até disse que eu podia fechar os olhos e imaginar uma puta me chupando. Mas disse que depois iria querer compensação. E deu risada. Me levantei. Ô, meu chapa. Vamos parar por aqui. Tentei fazer pose de durão, pra meter medo no cara. Mas ele sabia, eu ainda morava com a minha mãe. Então sentei outra vez na beira da minha cama. Ele, por fim, sossegou um pouco. Sacou um baralho de baixo do colchão e propôs o jogo. Era um fenômeno. Ganhou todas e depois me disse que aos vinte anos ganhava a vida com sete mesas de pôquer na esquina da 10 com a Principal. Ele jogava simultaneamente nessas mesas, contra sete adversários, ao mesmo tempo, e rapelava todos eles. Era o maior. Até que um tal de Mr. Q., jogador profissional formado em Harvard, apareceu por ali e o derrotou. Sua moral foi lá embaixo, não conseguia mais ganhar nem de um garoto de cinco anos. Morou nas ruas uns dois anos, pedindo esmolas. É duro, meu amigo, quando você simplesmente não acredita em mais nada - e não estou falando de Deus, estou falando de não acreditar mais que seja possível, só isso. Mas então aos poucos fui me reestabelecendo e depois me mandei para um squat em Londres - como conseguiu a grana para ir para lá ele não me contou - onde morei por cerca de oito anos. Era um lugar formidável, as pessoas se organizavam e cuidavam de suas vidas, mas ao mesmo tempo, uns estavam sempre perto do outros. Trabalhávamos para nós mesmos, no que isso era possível, e fazíamos festas e mais festas e o lugar atraía todo tipo de gente, uma diversidade incrível. Mas daí o Estado precisava do quarteirão para fazer um Museu, porque a área toda estava sendo revitalizada. E veio a polícia e, claro, resistimos, mas daí as coisas foram ficando cada vez mais difíceis. Porrada, meu amigo. Vê essa marca no meu braço aqui? Bala de borracha que é aquela bala que, dizem, não machuca muito, a não ser que acerte no seu olho, mas as chances são poucas, então não há com que se preocupar, hah, e então fui deportado, porque era ilegal. E então eu disse, uau, cara, que história, hein!? E ele disse, ah, não se empolgue, não se empolgue; mas, bem... Se você gostou mesmo da história, acho que podíamos pensar naquela compensação, não podíamos? Hahaha.

Nisso um guarda parou à porta da cela. Ao lado dele estavam Bill e Johnny. Johnny vestia umas calças de couro, uma camisa branca, um sobretudo, um chapéu, um par de botas novas, um par de óculos escuros, luvas de couro com os dedos cortados e fumava um cachimbo. Vambora, garoto - Bill havia pago a fiança. Me levantei e me despedi do pederasta, desejei-lhe boa sorte. Para você também, ele me respondeu. Se puder, venha me visitar dia desses. Talvez, respondi. E obrigado por me ensinar os truques todos do pôquer. Não há de quê. Apertamos as mãos. Na rua Johnny me contou onde havia arrumado as roupas: a gente apostou quem estava com mais piolhos e eu ganhei, você não imagina como, dividi os meus ao meio e os estiquei, como naquele conto do Bob Finger, hahaha. E Bill me diz então: Mas me diga, que namorado você arrumou no xadrez, hein, meu camarada? Hahaha.

E no final nem choveu e nem joguei bilhar e pederasta é uma palavra péssima. Mas acabei desistindo do bilhar, ao menos como meio de vida, deixarei o tapete verde apenas para diversão. O meu negócio agora é o pôquer, meu chapa. Se cuidem, trapaceiros de Jersey, o campeão do mundo está chegando, ele começa nessa cidade minúscula e daqui o céu é o limite.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Apresentando Bill.

Devia ser o quê? Umas três da manhã? E estava tudo bem, Bill se encontrava sobre os dois pés, abaixado, de cócoras. Eu encostava, sentado, na parede de azulejo azul da cozinha do apartamento de Julie. As outras pessoas dormiam, algumas na sala, algumas no quarto. Acendi um cigarro. Bill se movia, trocando o apoio de um pé para o outro, freneticamente, falando pelos cotovelos, como de costume. Horas antes, havia andado pelo apartamento, falado, apontado as coisas, questionado as pessoas, feito considerações, "noite inesquecível estamos tendo, não?", puxado as meninas para dançar. Eu mesmo acabei também dando pulos de um lado para o outro quando colocaram Hollie Barnie para tocar, mesmo que, em algum momento, algo distante me fizesse pensar de que talvez aquilo não fosse apropriado. Enfim.

Não sei se alguma vez já contei sobre Bill. Ele vem de uma família grande, nove irmãos ao todo. Fomos apresentados por alguns amigos em comum, pessoalzinho metido a escritor, gente como eu e também como ele. Mas Bill nunca se prestou a sentar em frente a uma máquina de escrever. Sempre perguntava sobre nossos trabalhos, lia nossas tentativas, falava de grandes histórias que foram e seriam contadas. Disse que já tinha muitas coisas para escrever - isso aos vinte e tantos anos! - porque tinha atravessado o país duas vezes. Mas nunca botou as mãos sobre uma folha em branco para contar essas histórias. Quando o conheci, Bill chamava-se Memphis. Sim, não sabíamos o verdadeiro nome dele. Memphis era um espertalhão viciado em 21 - melhor, um viciado no jogo que vivia espertamente das apostas do 21. Havia fugido de L.A. porque tinha sido jurado de morte e contava essa história obscura de um pessoal da máfia que queria apagá-lo, fugas pelas estradas, tiroteios, mulheres perigosas - ele tinha uma história incrível sobre Mary Burton, que ele dizia ser uma espécie de viúva negra, milionária que se casava todos os anos, porque seus maridos morriam invariavelmente após alguns meses de casamento das causas mais absurdas - um deles morreu engasgado com uma borracha escolar! - e o pior é que ela sempre arranjava um marido rico, mesmo que todos soubessem quão fatal era a companhia dela. Nessa época, descíamos Bill e eu até a Praça 22, dependurados nos trens, para não pagarmos passagem, e passávamos horas jogando pedras no Grande Lago. Queríamos saber se lá existia mesmo um monstro e uma vez Bill jurou ter visto uma cauda verde e escamosa que depressa rompeu a linha da superfície, e, claro, não acreditei. Vez ou outra flertávamos com as garotas que iam tomar sol por ali e numa ocasião eu contei a uma delas sobre o monstro e ela riu de mim, é óbvio, porque se tratava de uma história realmente absurda, mas ela atentamente me ouviu falar sobre esses seres pré-históricos que ainda viviam sob as águas e o beijo dela não era lá essas coisas, acho que os lábios dela eram finos deveras, mas ela se entregava com uma doçura que comovia. De qualquer forma, não a vi mais, porque ela se mudaria para outro estado com a família.

Depois fiquei sabendo que Memphis não se chamava Memphis e em um documento - que era falso, descobri depois - seu nome constava como Brighton Ashton. Certo, Brighton, porque Memphis? Porque eu tinha vergonha do meu nome e, bem, na realidade passei pouco tempo em L.A. - mas lhe garanto, boa parte daquelas histórias são verdadeiras. Vim da Califórnia e essa cicatriz na minha perna foi resultado de uma dentada de um tubarão perdido no Oceano Pacífico que quase acabou comigo, num tempo em que eu pegava ondas com minha longboard - não fosse minha sorte de sempre, meu camarada, eu não estaria aqui lhe contando essa. Nessa época estávamos numas de jogar futebol, também Johnny e Brandon e Rizzo. E lá vamos nós, eu realmente não tinha um físico apropriado para esse jogo, mas minhas pernas eram realmente boas e Bill me dizia, bem, vamos fazer assim, a defesa segura a bronca e eu lhe mando bolas de profundidade e você, meu camarada, veja se bote essas pernas pra funcionar, porque, afinal, sua vida é que estará em jogo, haha. E eu realmente corria e nunca vi nenhum lançador como Bill. Nem mesmo nas ligas profissionais, nem mesmo o grande Hornet Star, com suas mãos mágicas, conseguia fazer lançamentos tão bons. É sério. E vi Bill se recusar a jogar como profissional diversas vezes. Mas Bill, são contratos milionários. Apenas dinheiro, meu camarada, e sim, dinheiro é bom, claro que é, mas eu gosto demais desse jogo, acho que não aguentaria me obrigar aos treinos, aos jogos consecutivos e ganhar, ganhar e ganhar. E a bola fazia aquelas parábolas incríveis, curvas, jardas e jardas sobrevoadas e eu quase perdia a concentração porque me punha extasiado com aquelas maravilhas cortando o céu azul e lá ia eu, um zero à esquerda nos jogos universitários, ombros estreitos, compleição frágil, transformado por Bill num marcador fenomenal de touchdowns, quase um gênio possante da bola. E então Bill berrava como um louco, AAAHHH, É ISSO AÍ, MEU CAMARADA!

Também íamos ao rio detrás da casa do velho Moe, e Bill apostava corridas com Johnny, péssimos nadadores, mas ótimos comediantes, com suas braçadas escandalosas. Apostavam garrafas de uísque, ou então quem iria lavar a louça naquela semana - eles dividiram um apartamento durante uns três anos, até Johnny se casar. Eu gostava muito de ficar boiando e sentir o rio me carregando - ainda faço isso, o rio ainda está lá, mas hoje não tenho tido o mesmo gosto, acho que prefiro dar um mergulho e depois me aventurar ali pelo mato que segue rio abaixo. Bill às vezes me forçava a levar o violão e fazíamos uma fogueira e Johnny trazia batatas - ele era viciado em batatas - e ficávamos por lá e às vezes Moe aparecia e consigo Stella e Lucy, suas filhas, e era interessante como Moe não se importava se flertávamos com elas. Quero dizer, nunca aconteceu muita coisa, se não me engano Johnny uma vez ou outra se enroscou com Stella em algum canto por ali, mas nada demais. Bill era o que mais fazia piadas, claro, mas não passavam de bravatas, porque ele estava apaixonadíssimo por Ruth, uma negra de um metro e oitenta que era cabeleireira, e eu não estava tão interessado assim, apenas conversava normalmente com elas, porque as achava sem graça - se bem que houve certa tarde em que, inexplicavelmente, Lucy estava, hm, mais atraente do que de que costume, eu não sei se eu me encontrava um tanto carente ou sei lá o quê, mas o que eu mais tinha vontade na minha vida era de me deitar sobre aquelas pernas que, naquela tarde, me pareciam mais bem torneadas do que de costume e, claro, ela percebeu que eu estava diferente e ela também ficou diferente, e uma ponta de esperança surgiu para ambos, mas, na vez seguinte que nos vimos não foi do mesmo jeito e bem, é a vida.

Mas depois Johnny encontrou outro documento de Bill e lá constava: Robert Manley. E passamos então a chamar Brighton, ex-Memphis, de Bill e ele nos confessou que a cicatriz da perna havia sido adquirida, na verdade, em uma briga de bar, mas que ele realmente havia pêgo onda na Califórnia por um tempo, e então ele nos disse que vinha de uma família de nove irmãos e que seu pai era um cantor de blues, perdido em algum lugar no sudeste, tentando a vida como músico e era a sina dele ser músico também e ele insistiu que eu deveria ensiná-lo a tocar violão e então eu lhe disse que arrumasse um e dois dias depois ele me apareceu com uma linda semi acústica um tanto surrada e um pequeno amplificador valvulado e eu não faço idéia de onde ele arranjou dinheiro para aquilo, talvez executando alguma trapaça ou fazendo algum trabalho escuso e, agora, nesse momento, ele está entrando porta adentro e se ajeitando no sofá velho da sala aqui de casa e, sim, vamos ver se não fazemos algumas canções para nos divertir e até mesmo para fazer algum dinheiro, afinal, nessa terra quase tudo ainda é movido pela força da grana, sim, meu amigo, quase tudo, mas não tudo.